O Futuro Biofílico: Bioluminescência e Materiais Vivos
Como a natureza pode substituir a iluminação artificial e criar edifícios que respiram e evoluem com o usuário.
Na visão de Jane Bennett, a matéria que consideramos ‘morta’, como fósseis e pedras, não está realmente morta e é constituída por um jogo de forças vivas e energéticas (Deleuze). Portanto uma arquitetura que seja um local de agenciamento dentro e através desta multiplicidade de outros corpos e formações materiais e imateriais, que ainda desconhecemos, passará a constituir uma nova sintaxe do “viver e estar no mundo” do homem contemporâneo, repleto de conflitos globais e sócio-ambientais. Contamos atualmente com a possibilidade de conceber o design baseado em materiais vivos e adaptativos às dinâmicas de mudanças globais: podemos produzir conceitos rigorosos, uma abordagem na arquitetura que nos permitirá explorar, compreender e contribuir para uma mudança interdisciplinar de paradigma do nosso “estar no mundo”. Quais são as maneiras de construir uma arquitetura de alto repertório neste século que sejam consistentes com as necessidades futuras do homem-natureza? A nossa proposta é criar novas ferramentas computacionais e cognitivas para mimetizar os mecanismos evolucionários internalizados na natureza construindo uma arquitetura biofílica, ou seja, fundamentada em epistemologias estético-científicas (com a capacidade de auto-organizar-se, crescer e reproduzir espontaneamente). Uma arquitetura que evolua com o usuário-intérprete. Natureza e consumo – uma NeuroArquitetura Pode-se dizer que o equilíbrio do nosso planeta – para nossa própria sobrevivência necessita de uma redefinição precisa de nosso comportamento, educação, hábitos básicos, alimentação, capacidade de gestão de resíduos e bens de consumo. Por exemplo, temos que nos acostumar com a ideia de que não precisamos de tanta luz à noite (nossos olhos têm uma ampla capacidade de alcance que não usamos), assim como quando colocamos um suéter se estiver frio. O consumo de energia deve ser radicalmente reduzido: uma cidade europeia de médio porte de apenas 100 km² gasta 10 milhões de euros anualmente apenas na manutenção de suas luzes de rua (novas lâmpadas, reparos, repintura), além do consumo de eletricidade. Se multiplicado por todas as cidades dos cinco continentes, o número é absolutamente astronômico. Portanto, a bioluminescência substituirá a iluminação artificial, em alguns níveis – não há dúvida sobre isso. A natureza está sempre nos ensinando, neste caso de muitas maneiras bioluminescentes, de bactérias e plânctons a algas, fungos, insetos, etc. Seria suicídio para as próximas gerações se não aprendêssemos com a natureza a superar um novo modelo energético. Será que podemos pensar a arquitetura como sendo capaz de utilizar suas dinâmicas espaço-temporais, materialidades e agenciamentos para romper esta tradição milenar? Será que a arquitetura poderá transcender a condição antropológica e ancestral de abrigo contra as intempéries do clima e se tornar como uma espécie de “observatório” amplificador de nossos horizontes de percepção sobre o futuro por vir? Uma arquitetura que possa incorporar, interagir e transitar as inteligências humanas e não humanas.
Podemos pensar o objeto da própria arquitetura como uma forma de inteligência não humana? Ou seja, a própria arquitetura está se tornando um corpo vivo e poderá absorver e transmitir seu próprio metabolismo com a natureza e o ambiente circundante e nos conduzir para uma nova maneira de viver e estar no mundo Diferentes fatores podem influenciar a forma como percebemos a mesma realidade. No caso da arquitetura e do design, como a NeuroArquitetura e a arquitetura bioclimática podem contribuir para o entendimento de como as diferentes características sensoriais dos ambientes podem afetar a percepção e consequentemente, construir novas representações mentais para ampliar nosso entendimento sobre a realidade? Diferenças nos órgãos sensoriais (como a deficiência de um ou mais sentidos, por exemplo), podem fazer com que a realidade mais simples seja percebida de forma completamente diferente. Mas há outras variações que valem a pena mencionar. A idade dos usuários também pode afetar diretamente o funcionamento dos órgãos sensoriais, como os olhos ou ouvidos, ou até mesmo o funcionamento do cérebro ao receber e interpretar informações do ambiente. Lidar com esse tipo de revisão requer uma perspectiva ampla e inter-relacionada. Isso é especialmente útil no caso de disciplinas complexas e que ainda não foram revisadas nesse nível, como a neuroarquitetura. Ao longo dos tempos, a prática da arquitetura tem sido tradicionalmente determinada pelo domínio do olho/visão; um número crescente de arquitetos e designers contemporâneos têm, nas últimas décadas, começado a considerar o papel dos outros sentidos na percepção do espaço,ou seja, som, tato, olfato e raramente o paladar. Ao incorporar os cinco sentidos nesta nova concepção, a arquitetura se coloca como uma nova forma de interface mediadora entre o homem e o mundo e, consequentemente, conduz nossa cognição para experiências somente reveladas por um determinado locus arquitetônico que molde nossa cognição para um estado de permanente admirabilidade. Este estado de consciência (awareness) de manter nossa percepção viva ao incorporar todos os nossos cinco sentidos, funda uma nova episteme na arquitetura: saltamos da função de abrigo para um objeto de magnificação fenomenológico-estético-social. Assim, ao considerar a arquitetura como uma obra de arte aplicada, passamos a vivenciá-la como algo que evolui em concomitância com o usuário, como também a ser sentida e percebida na plenitude da nossa dimensão corporal: as nuances do nosso movimento pelo espaço, os odores, modificações de escala e luz, passam a incorporar o nosso caminhar pelo espaço como dança, ouvir como música, olhar como cinema, cheirar como fragrância de perfume, etc. Trata-se uma arquitetura afetada pela presença do seu usuário, não somente no plano das transformações físicas que ele pode realizar mas também que se modifica, enquanto ambiente, de acordo com a experiência daquela que habita o espaço. Uma obra de arte ambiental que se oferece como espaço e se afeta pelo uso desse espaço.
A arquitetura como revolução neurocognitiva – Neuro AU
A NeuroArquitetura possui um caráter interdisciplinar e, ao incorporar elementos da neurociência aplicada, estabelece interfaces ricas com outros campos do conhecimento que, originalmente, não mantinham amplo diálogo com a arquitetura e o urbanismo tradicionais. Sendo assim, a NeuroArquitetura amplia o campo de pesquisas sobre a relação entre o ambiente construído e seus usuários, potencializando a compreensão de diversas mensagens que esse ambiente transmite, inclusive no que se refere a níveis menos conscientes de percepção Qual o papel do neurodesign e das novas tecnologias digitais e biotecnológicas para fundamentar esta nova concepção arquitetônica, seja em sua dimensão projetual ou construtiva? Para atender a esse objetivo amplo, foram definidos os seguintes sub objetivos: fornecer uma visão global da produção científica relacionada, mostrando as tendências das diferentes abordagens em termos de tipo e data de publicação.
José Wagner Garcia